Edição 2009

“Um dos aspectos mais importantes da actual crise internacional prende-se com um problema de confiança.” Esta foi uma das conclusões do Professor Augusto Mateus durante a apresentação, em Lisboa, do Barómetro de Confiança da Edelman, a maior empresa de relações públicas do mundo de que é afiliado o grupo português de comunicação GCI.

Este estudo é realizado a nível internacional há já dez anos e pretende medir os índices de confiança das pessoas face a empresas, governos, media e organizações não governamentais (ONG’s).

De acordo com o Barómetro de Confiança 2009, cerca de duas em cada três pessoas informadas afirmam que confiam menos nas empresas, nos media e nos governos, estando estes com uma popularidade mais baixa do que o meio empresarial.

Para o ex-ministro da Economia, a quebra de confiança constatada pelo estudo da Edelman é uma evidência que se está repercutir sobretudo nos negócios e no sector empresarial, embora poupando alguns sectores não tão dependentes do sistema financeiro.

É por esta razão que Augusto Mateus fala de “uma crise assimétrica” que afecta com maior intensidade as regiões mais desenvolvidas, como os Estados Unidos e a Europa. Consequentemente, as pessoas, receando o futuro e afectadas pelo clima de desconfiança, começam por cortar nos bens duradouros, como carros ou electrodomésticos, ou em produtos como viagens, enquanto que as empresas se contraem nos bens de investimento.

Por isso, não será de estranhar que uma das novidades do Barómetro de Confiança deste ano é constatar uma diminuição generalizada de confiança das pessoas face ao sector empresarial e que não está a ser acompanhada pela subida dos indicadores noutras entidades, nomeadamente nos governos ou nas entidades ligadas aos poderes públicos. Ou seja, todos os valores de confiança das pessoas descem e isto é inédito em 10 anos de existência daquele estudo.

No entanto, de acordo com a análise feita por Augusto Mateus ao documento da Edelman, a confiança depositada pelas pessoas em ONG’s ou em elementos de conhecimento tecnológico e científico está a resistir melhor aos efeitos da crise.

Na sua intervenção no pequeno auditório da Culturgest, o ex-ministro deixou também algumas ideias sobre aquilo que deverá ser feito por modo a restabelecer a confiança das pessoas face às empresas, governos e entidades públicas.

A reconfiguração dos modelos reguladores é uma delas. “A questão não estão em saber se deve existir ou não regulação, mas sim como esta deve ser feita.” Relembre-se que de acordo com o estudo da Edelman, dois em cada três dos inquiridos consideram que os  governos devem regular a indústria ou nacionalizar empresas, como forma de restaurar a confiança pública.

Augusto Mateus lembra também que Portugal não pode ser protagonista da solução global, porque para o economista tal missão caberá às potências mundiais. Porém, os vários actores nacionais terão certamente uma palavra a dizer na gestão interna da crise. E neste sentido, Augusto Mateus exorta os empresários a promover uma mudança de paradigma no relacionamento entre o negócio e o consumidores.

Avisa também as entidades públicas que, por exemplo, uma sociedade em que “os seus problemas de saúde sejam bem resolvidos, é sem dúvida uma sociedade com mais confiança”.

Para o economista, um dos males do actual sistema, tem sido o “exagero dos gestores das empresas em pensarem só para gerar valor para os accionistas”, descurando-se o lado do consumidor. Segundo Augusto Mateus, mais do que procurar gerar valor para o accionista, as empresas devem preocupar-se sim em gerar valor para o cidadão, para o seu território e comunidades e com isso gerar um valor accionista bastante mais duradouro e sustentável.

Alertou ainda para a necessidade das pessoas terem mais confiança em relação às suas vidas, e que em vez de se “gastar menos e poupar mais, é preferível gastar melhor e poupar melhor”.

Por último, Augusto Mateus falou na União Económica e Monetária e do Euro como exemplos de confiança depositada pelas pessoas em entidades e projectos que produziram resultados positivos. O problema, referiu o economista, é que muitas vezes as pessoas tendem a desvalorizar estes feitos.

No final do encontro foi ainda anunciado pelo Presidente do Grupo GCI, José Manuel Costa, que “dada a relevância e a representatividade deste estudo ao nível internacional, Portugal irá  juntar-se, no próximo ano, aos 20 países que, globalmente, permitem antecipar tendências e comportamentos dos principais líderes de opinião, uma vez que se trata de um inquérito realizado junto de um público informado”.